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19 Feb 2013
Desmistificando a Toxoplasmose

 

            A toxoplasmose é uma zoonose de distribuída mundialmente, que acomete tanto o homem quanto outros animais. Os felídeos são os únicos hospedeiros que eliminam oocistos do parasita, formas estas resultantes da fase sexuada do ciclo. As condições climáticas são fundamentais para a esporulação dos oocistos no meio-ambiente e, conseqüentemente, na propagação da infecção, por meio da contaminação de água e alimentos. Os demais animais desempenham o papel de hospedeiros intermediários, transmitindo a protozoose apenas quando sua carne serve para alimentação ou por via congênita.

Existem duas causas principias de transmissão do T. gondii para o homem. A infecção pode ocorrer pela ingestão de alimentos ou água contaminada com oocistos esporulados ou ainda pela ingestão de carne crua ou mal cozida contendo cistos teciduais do T. gondii. Pesquisas sugerem que a ingestão inapropriada de carne e produtos cárneos crus ou mal cozidos contendo cistos do T. gondii seria a principal via de transmissão para seres humanos em algumas localidades. O manuseio de carnes cruas em ambiente doméstico ou ainda em abatedouros tem sido descrito como um fator de risco de aquisição da infecção.

 

 

SUÍNOS

 

A produção tecnificada de suínos é sanitariamente muito segura, pois conta com assistência veterinária em todas as fases da criação e no abate todo o processo é sujeito a serviço de inspeção [municipal, estadual, federal], atividade essa também realizada pelo MV. No entanto ainda há produtores não orientados, fora do sistema de produção que obedece às normas de bem estar e sanidade. São as criações de fundo de quintal e manipulação dos subprodutos de forma dita artesanal, que oferecem risco à saúde humana.

Nessas granjas tem sido verificada a presença de felinos em grande quantidade, que vivem de forma livre e sem cuidados higiênico-sanitários. A eliminação de oocistos pelos gatos e a conseqüente contaminação da ração, do solo e muitas vezes da água de beber dos animais, são fontes de infecção para os suínos. Outras formas de veiculação do T. gondii para esta espécie seriam: a ingestão de roedores assim como de carnes ou restos de alimentos contaminados com cistos do protozoário, prática muito comum em pequenas criações, ou por transmissão transplacentária.

 Além da carne in natura, embutidos crus elaborados com a carne suína podem veicular o T. gondii para seres humanos. Estes produtos são responsáveis por 50 a 75% de todos os casos de toxoplasmose humana nos Estados Unidos. No Brasil, em algumas localidades a ingestão de embutidos artesanais preparados com carnes desta espécie é uma via de transmissão importante, não só para os indivíduos que ingerem, mas também para aqueles que estão envolvidos com a sua preparação.

            A alta produção e o considerável consumo de carne suína no Brasil, a elevada disseminação e prevalência do T. gondii associada ao fato de que os cistos podem permanecer viáveis na musculatura dos suínos infectados por até 875 dias e não serem detectáveis ao abate, torna este alimento uma importante via de transmissão da toxoplasmose ao homem quando ingerido cru ou mal cozido.

 

OVINOS E CAPRINOS

 

Tanto para ovinos quanto para caprinos, a principal via de transmissão seria a ingestão de pastagens e água contaminada com oocistos esporulados do parasita. o T. gondii é mais patogênico para os caprinos quando comparado aos demais animais de abate. Nesta espécie o protozoário freqüentemente causa morte fetal, mumificação, natimortalidade, abortos ou nascimento de animais debilitados, ocasionando perda econômica aos caprinocultores.

Na espécie caprina a prevalência da infecção é variável de acordo com a localidade. Diversos artigos demonstram que a toxoplasmose nesses pequenos ruminantes encontra-se amplamente distribuída em todo território nacional. A infecção nesta espécie é fato de grande preocupação devido a transmissão da infecção através do leite in natura, seus subprodutos e da carne e seus derivados quando consumidos pelos seres humanos.

 

BOVINOS

 

Pastagens contaminadas com oocistos são a principal via de transmissão para esses animais, por isso o sistema de criação extensivo, muito comum em nosso país favorece a infecção toxoplásmica nos bovinos que, embora  sejam suscetíveis a infecção, são mais resistentes à doença induzida pelo protozoário, não manifestando na grande maioria das vezes sinais clínicos.

No Brasil, o hábito de ingerir carne crua ou mal cozida principalmente de gado bovino, torna a ingestão deste tipo de produto uma importante via de transmissão, tanto para os humanos quanto para outros animais domésticos carnívoros, que em algumas regiões são alimentados com sobras de carne e vísceras cruas. O que não ocorre em criações com assistência médica-veterinária, já que é uma prática proibida.

Estudos realizados sobre a freqüência da infecção tornam possível afirmar que esta protozoose encontra-se amplamente disseminada entre os bovinos por todo o nosso país, embora as porcentagens possam variar de acordo com a região. Desde modo, a alta prevalência de animais positivos para Toxoplasmose em bovinos, relatada pela maioria dos autores, reforça a idéia de que esses animais possam servir de fonte de infecção não só para os consumidores como também para indivíduos cujo trabalho os coloca em contato direto com este tipo de alimento cru ou mal cozido, como por exemplo, funcionários de abatedouros  e cozinheiros. Outro fator preocupante é a informalidade característica dos mercados alimentares em nosso país que é excepcionalmente relevante no caso de carne bovina onde o abate clandestino corresponde à cerca de 50% do mercado nacional.

A ingestão dessa carne de procedência duvidosa e que não passou por um processo de inspeção prévia aumenta o risco de infecção pelo protozoário para o consumidor. No entanto, quando boas práticas de manejo são oferecidas aos animais, a prevalência da infecção tende a diminuir.

Até o momento, a transmissão toxoplásmica pelo leite in natura só tem sido descrita como possível na espécie caprina.

 

  

GALINHAS DOMÉSTICAS

 

As aves também podem ser consideradas importantes hospedeiros intermediários do T. gondii. Uma vez que servem como fonte de infecção do parasita para felinos. Além disso, galinhas domésticas têm sido consideradas como um bom indicador da contaminação do solo por oocistos de T. gondii, sendo utilizadas como animais sentinelas nas regiões de alta prevalência da infecção humana, em função do hábito de ciscar e de sua suscetibilidade ao protozoário.

Frangos criados em sistemas intensivos tem menor probabilidade de contato com as vias de transmissão do parasita e apresentam baixa prevalência ao T. gondii. Por outro lado, a grande procura dos consumidores por produtos diferenciados e de qualidade superior vem influenciando em mudanças nos sistemas utilizados para produção de frangos. Resgata-se o estilo da criação da galinha caipira e, em um âmbito ainda mais moderno, a criação orgânica. Galinhas oriundas de pequenas criações podem conter cistos teciduais de T. gondii, representando risco de infecção para o homem, principalmente quando estes manipulam carnes sem muita higiene ou por meio do consumo de carnes cruas ou semi-cozidas. Com isso, sugere-se que a relação estabelecida com o grau de contato com galinhas domésticas pode estar associada ao aumento da oportunidade de adquirir a infecção por meio do consumo da carne e/ou de ovos parasitados.

De um modo geral, a criação de galinhas em escala industrial, como fonte de transmissão toxoplásmica para humanos, têm demonstrado ser de pequena importância, devido ao tipo de manejo e sistema de criação que além de rápido, não permite o contato com fontes de infecção, porém, contrasta com a criação doméstica em pequena escala, do tipo caipira, onde os animais estão sujeitos ao contato com vetores, animais portadores e conseqüentemente alimentos, solo e água contaminados, convivendo durante anos nesse mesmo ambiente, já que não se respeitam norma de vazio sanitário e as gerações co-habitam, permitindo  manutenção de parasitas e outros organismos causadores de doenças.

 

FELINOS

 

Os felinos domésticos são animais importantes na cadeia epidemiológica da toxoplasmose. Porém existem alguns mitos e exageros no papel do gato de estimação na transmissão. Esses animais quando bem tratados tem poucas chances de se contaminar e menores ainda são as possibilidades de transmissão para o dono, já que esse animal se por ventura se contaminar, eliminará os oocisto apenas uma única vez. Animais que são semi domésticos: não vacinados, não vermifugados, com pouca atenção sanitária, sem assistência veterinária e não castrados e por isso passam grandes períodos na rua, em contato com outros animais nas mesmas condições, esse sim é um animal que oferece risco. Os gatos eliminam oocistos mais de uma vez na vida somente em casos de baixa de imunidade, o que ocorre com esses animais sem a devida assistência e cuidados.

 Para o diagnóstico em felinos podemos realizar exames hematológicos e bioquímicos. No hemograma podemos observar alterações como, anemia arregenerativa, leucocitose neutrofílica, linfocitose, neutropenia, monocitose e eosinofilia.   A bioquímica sanguínea quando analisada durante a fase aguda da doença, demonstra alterações como hipoproteinemia e hipoalbuminemia além do aumento das enzimas hepáticas (ALT e AST) em gatos com necrose muscular. Há também aumento dos níveis de bilirrubina em gatos que desenvolvem colangio-hepatite e lipidose hepática. Já os animais que desenvolvem pancreatite, podem apresentar aumento da amilase e lipase, além de redução no nível total de cálcio com concentração de albumina normal.

Taquizoítos podem ser detectados em vários tecidos e fluidos durante a doença aguda. São comumente encontrados em fluidos peritoneais e torácicos de animais que desenvolveram efusões torácicas e ascite. 

 Dos testes sorológicos, a detecção de anticorpos IgM correlaciona-se melhor com a toxoplasmose clínica. O diagnóstico dessa doença pode ser feito pela combinação  da demonstração de anticorpos no soro, com um título de IgM maior do que 1:64 ou um aumento de quatro vezes ou mais no título de IgG, que sugere infecção ativa ou recente, juntamente  com a presença de sinais clínicos da doença atribuíveis à toxoplasmose e exclusão de outras causas e resposta positiva ao tratamento. Pela possibilidade do microorganismo não ser removido do corpo, a maioria dos gatos será positiva para o anticorpo pelo resto da vida, de modo que existe pouca utilidade em se repetir a titulação de anticorpos sérica após a resolução da doença clínica.

 

                                                           Texto baseado no Artigo Patricia Riddell Millar e colaboradores